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By: mauricio berlitz

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Sunday, 11-Feb-2007 02:46 Email | Share | | Bookmark
Fórmula 1, uma paixão dos brasileiros! - [Emerson Fittipaldi]

Emmo em Interlagos, 1963, correndo numa motocicleta.
O começo de Kart-Mini, em 1966
Emerson Fittipaldi na F2 em 1971 - Interlagos
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Quem diria lá no início da Fórmula 1, em 1950, que um dia o Brasil fosse fazer tanto estrago nas pistas da categoria mais badalada do automobilismo mundial. Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna foram os nossos maiores protagonistas na categoria, levando uma nação inteira nas costas, sobre quatro rodas.
A partir de hoje, começo uma série de reportagens sobre os três maiores pilotos brasileiros da F1, começando por aquele que iniciou nossa trajetória de conquistas, Emerson Fittipaldi, o Rato ou Emmo.


A VIDA EM ALTA VELOCIDADE

Resumo da vida de Emerson Fittipaldi, um dos maiores pilotos do automobilismo mundial

Desafiar a morte milhares de vezes. Sentir o êxtase da vitória ao cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. Levantar a taça de campeão e pensar na próxima corrida. A tensão na largada e o alívio da bandeirada na reta final. Glamour, fama, velocidade e pura adrenalina. Uma vida em alta velocidade é o relato emocionado de um dos maiores desportistas brasileiros de todos os tempos.

Desde de pequeno, Emerson sabia que sua vida era correr nas pistas. "Acompanhei tantas corridas desde os cinco anos de idade e estudava tudo com tanta atenção, que mesmo antes de começar a pilotar um kart, eu já sabia a maneira ideal de entrar numa curva e sair dela", relembra.

Ao longo de seus quarenta anos de carreira no automobilismo, o piloto viveu momentos de pesadelo e glória. Enfrentou os tempos heróicos e perigosos deste esporte, investiu num sonho brasileiro, quebrou protocolos e encarou a morte de perto. Carismático, ousado e tenaz, ele fala de suas glórias, temores e paixões. Os bastidores das grandes corridas, a ousadia na hora da montagem de carros mais velozes, os acidentes que vitimaram alguns de seus melhores amigos e quase o fizeram desistir de pilotar, a pressão dos chefes de equipe. As rivalidades históricas e a solidariedade entre os pilotos.

O famoso "Rato" – apelido que recebeu aos 14 anos de idade, quando ajudava o irmão nas corridas de kart – sabia farejar as oportunidades que lhe surgiam. Entre motos e carros envenenados, tinha um invejável tino para os negócios. Primeiro foi a criação do volante Fórmula 1, depois uma empresa de minikarts e o carro Fittiporche. Ao lado desses empreendimentos, vieram as primeiras vitórias em Interlagos, os primeiros desafios e, finalmente, a ida para a Inglaterra – passaporte que lhe garantiria entrar nos grandes circuitos. Estava na hora do "Rato" rugir em outras pistas e ganhar o mundo da Fórmula 1.

A Vida de um Campeão

12 de dezembro de 1947 – Nasce Emerson Fittipaldi.

1951 – Aos cinco anos de idade, Emerson assiste pela primeira vez ao Grande Prêmio de Interlagos e descobre o que quer ser quando crescer: piloto de corrida.

1957 - Por intermédio do pai – um famoso locutor de rádio e televisão – Emerson é apresentado a seu maior ídolo: Juan Manuel Fangio, o lendário piloto argentino cinco vezes campeão de Fórmula 1.

1964 – Emerson torna-se bicampeão brasileiro de Kart.

1967 – Decide viajar para a Inglaterra para tentar a sorte no automobilismo europeu.

1969 – Conquista o campeonato britânico de Fórmula 3. Tinha 22 anos e começa a se destacar no cenário do automobilismo mundial

1970 – Emerson casa-se com Maria Helena.

1970 – Em um treino no circuito de Monza, morre Jochen Rindt, líder do campeonato e companheiro de equipe de Fittipaldi, que na época estreava como piloto de Fórmula 1 na equipe Lotus. No mesmo ano, Emerson venceria a última prova da temporada. Foi a melhor forma de homenagear o amigo, pois com essa vitória Jochen Rint tornou-se campeão póstumo da temporada de F-1.

1972 – Correndo pela equipe Lotus, Emerson ganha seu primeiro título na Fórmula 1 com o famoso carro negro da John Player Special. Tinha 25 anos de idade e foi mais jovem piloto a ganhar o campeonato mundial, marca que detém até hoje.

1973 – Emerson vence o grande prêmio de Interlagos. Era a primeira vez que o GP do Brasil contava pontos para o campeonato.

1973 – Na última corrida da temporada, morre François Cevert, um dos melhores pilotos da época e verdadeiro herói nacional na França. Emerson fica muito abalado com a morte do amigo e pensa seriamente em parar de competir. Os anos 70 foram um período mortal para os pilotos de F-1.

1974 – Emerson troca a Lotus pela McLaren. Queria provar a ele mesmo e ao célebre Colin Chapman, seu antigo chefe, que tinha condições de ser campeão novamente.

1974 – Nasce Juliana, primeira filha de Emerson e Maria Helena. Fittipaldi conquista o bicampeonato da Fórmula 1.

1975 – Em protesto contra as falhas na segurança do autódromo de Montjuich, em Barcelona, Emerson abandona o GP depois de completar uma volta e toma o primeiro vôo para Genebra. Quando desce do avião, recebe a notícia de que cinco pessoas haviam morrido no autódromo em conseqüência de um acidente com o piloto Rolf Stommelen. Emerson perderia o campeonato daquele ano.

1975 – Emerson não renova o contrato com a McLaren e decide, junto com o irmão Wilsinho, montar uma equipe brasileira para competir na Fórmula 1. Assina um contrato de patrocínio com a Copersucar, uma cooperativa nacional de produtores de açúcar. O carro da equipe, construído no Brasil, ficaria conhecido como Copersucar.

1976 – Nasce Jayson, o segundo filho de Emerson.

1978 – Morre Ronnie Peterson, uma dos melhores amigos de Emerson na F-1, em um acidente no circuito de Monza, Itália.

1979 – Depois de quatro temporadas de fracasso, Emerson desiste do sonho de correr com um carro fabricado no Brasil. Alguns anos depois abandonaria a Fórmula 1.

1981 – Nasce Tatiana, a terceira filha de Fittipaldi.

1983 - Maria Helena e Emerson se separam.

1983 – Emerson conhece Teresa sua segunda esposa.

1984 – Depois de correr pela primeira vez as 500 milhas de Indianápolis, Emerson decide voltar a competir profissionalmente na Fórmula Indy.

1985 – Vence a prova de Michigan, tornando-se o primeiro piloto brasileiro a ganhar uma corrida em circuito oval.

1987 – Nasce Joana, a primeira filha de Emerson com Teresa.

1989 – Numa emocionante disputa nas voltas finais com Al Unser Jr., Fittipaldi vence as 500 milhas de Indianápolis. Aquela vitória significou a coroação da carreira de Emerson como piloto de competição. Tinha 44 anos e competia com pilotos que tinham a metade de sua idade. Foi o seu apogeu.

1991 – Nasce Luca, o filho mais novo de Emerson.

1993 – Emerson vence as 500 milhas pela segunda vez e causa grande polêmica ao beber suco laranja, e não o tradicional leite, depois da vitória.

1996 – Emerson bate a mais de 320 km/h no circuito oval de Michigan. Com uma grave lesão no pescoço escapou de ficar paralítico por menos de 1milímetro.

1997 – Emerson e seu filho Luca de sete anos sofrem um acidente de ultraleve no interior de São Paulo. Caíram de uma altura de 100 metros, com o ultraleve batendo de nariz no chão. Tiveram a sorte de cair perto de um rio, pois a lama absorveu o impacto, salvando suas vidas.

2001 – Depois de 19 anos de casamento, separa-se de Teresa.

2002 – Participa do Goodwood Festival Speed, uma espécie de Salão do Automóvel de carros e motos antigos na Inglaterra. Clive Chapman, filho de Colin, havia restaurado a Lotus 72 com a qual Emerson ganhara seu primeiro campeonato de Fórmula 1. Depois de trinta anos, Emerson, Emerson voltava a dirigir o carro: "foi como entrar numa máquina do tempo... Naquele dia, descobri que ainda está muito vivo dentro de mim o garoto que atravessou o oceano em busca de um sonho". euforia da vitória e os perigos de cada circuito.


Emerson Fittipaldi x Jackie Stewart

“Esta disputa foi inesquecível” – disse Emerson Fittipaldi sobre seu duelo com Jackie Stewart, quando do lançamento de um DVD com imagens de seus títulos na F-1.
De fato, durante as quatro temporadas em que dividiram o grid, Jackie e Emmo colecionaram disputas incríveis e momentos que entraram para a história da categoria. A inteligência dos dois pilotos, capazes de dosar velocidade com estratégia, deixou a torcida de pé nas arquibancadas. De fato, parecia uma partida de xadrez jogada por sobre uma bandeira quadriculada.
Quando Emerson chegou à F-1, em 1970, pilotando o terceiro carro da Lotus, Stewart já era o maior piloto do mundo. Havia conquistado o título de 1969 a bordo de um Matra-Ford e estava lutando contra Jochen Rindt, companheiro de equipe do brasileiro, e Jacky Ickx, da Ferrari, pelo título da temporada. Sem sombra de dúvidas, Jackie representava o futuro da categoria, com seu visual cabeludo a la Beatles, seu faro comercial que servia como um ímã para patrocinadores e sua até então ingrata luta por segurança.
Um dos primeiros pilotos a usar capacetes que protegiam toda a cabeça e a exigir que seus carros tivessem os desconfortáveis cintos de segurança, Jackie havia sentido na pele os riscos de pilotar na F-1 daquela época. Um ano após sua incrível estréia pela BRM, quando terminou o campeonato de 1965 em terceiro lugar, atrás apenas de Jim Clark e Graham Hill, Stewart sofreu o mais grave acidente de sua vida, na pista de Spa-Francochamps. Debaixo do maior aguaceiro, seu carro rodou e acabou se chocando com um barranco, o que produziu um perigoso vazamento de combustível. Para sua sorte, Hill e Bob Bondurant haviam rodado há alguns metros de distância, e partiram para o socorro do escocês. Durante meia hora, os dois pilotos lutaram para arrancar Jackie do carro, mergulhado em gasolina. O que se viu em seguida parece até roteiro de comédia, hoje em dia.

Graham e Bondurant levaram o combalido Jackie para a casa mais próxima, onde uma freira horrorizada pôde ver os dois homens despindo o escocês de seu macacão ensopado de combustível. Fora o grito histérico daquela senhora, Jackie ainda precisou ser levado na caçamba de uma caminhonete para o posto médico mais próximo, onde esperou por horas no chão, sobre uma maca, entre um monte de bitucas de cigarro. Por sorte, sua lesão na coluna não era tão séria quanto pareceu num primeiro momento, e ele foi capaz de se recuperar completamente; de qualquer maneira, aquele episódio serviu para lhe mostrar o estado calamitoso que estava a F-1 e o risco que os pilotos corriam a cada prova.

Emerson foi introduzido a este perigo bem cedo. No Grande Prêmio da Itália de 1970, sua terceira corrida, ele perdeu o controle de seu Lotus nos treinos livres e escapou por pouco de se quebrar todo numa forte pancada. No sábado, Rindt, pilotando sem asas para aumentar sua velocidade, faleceu ao bater a toda velocidade no guard rail durante a qualificação. O então líder do campeonato, mentor de Emerson, estava morto, mas a corrida transcorreu no dia seguinte, como dizia o script.

Jackie ficou chocado com a cena, e não teve vergonha de admitir que teve dificuldades para entrar em seu carro por não conseguir segurar o choro. Este comentário, entre outros tantos do escocês em nome da segurança, serviram para lhe trazer a imagem de medroso e covarde por parte da imprensa.

Sem dúvida, o impacto daquele momento chocou Fittipaldi. Há poucos meses atrás, ele ainda estava competindo na F-3 Inglesa, surgindo como uma tremenda zebra no topo da tabela. Agora, após a morte de Rindt, havia sido alçado ao posto de primeiro piloto da mítica equipe Lotus, com a responsabilidade de carregar toda a expectativa que o Brasil inteiro depositava em seu maior ídolo do automobilismo. O incrível controle que Emerson tinha sobre seu carro e sua capacidade de pilotar suavemente em qualquer pista ou condição permitiram-lhe continuar sua escalada rumo ao sucesso.

No ano seguinte, o brasileiro ganharia experiência, enfrentando Jackie cada vez mais de igual para igual. Mas, a bordo de um Tyrrel-Ford preparado com cuidado pelo seu Ken, Stewart não deu margem para a concorrência e venceu o título Emerson Fittipaldi
de forma incontestável. Os riscos continuavam a todo canto, mas o escocês mostrava que a consciência do problema não afetava sua velocidade. Emerson, ainda com 24 anos, passou a escutar com atenção as palavras do escocês de boné listrado, e mostrou sua simpatia pela luta por segurança. No final daquele ano, o outro grande defensor da causa, Jo Sifferd, falecia numa prova extra-campeonato em Brands Hatch. “Ele tinha lutado tanto pela segurança e agora era mais uma vítima”, lamentou Jackie Stewart. 1972 foi o ano de ouro de Emerson. Sua Lotus 72D esteve imbatível durante o ano todo, conquistando 5 vitórias inquestionáveis e permitindo que o brasileiro abrisse uma diferença monstruosa para o resto do grid. Tudo dava certo, e Emerson soube explorar ao máximo a qualidade daquele famoso bólido preto e dourado, tão veloz quando frágil. Collin Chapman, o genial chefe da equipe inglesa, era um projetista criativo e inovador, mas que não pensava duas vezes em ganhar preciosos segundos em detrimento de maior proteção aos seus pilotos. Compensava esta atitude deliberada com uma forte relação de amizade com seus comandados, o que apenas lhe trazia mais pesar quando um deles falecia ao volante de seus carros. Foi assim com Jim Clark e Jocken Rindt. A sua simpatia com Emerson chegou a um ponto em que Collin pediu, abertamente, para que o brasileiro não se envolvesse demais com ele, pois a dor das perdas anteriores havia sido muito forte.

Dureza você ouvir palavras deste tipo justo de seu chefe de equipe. Jackie tinha outro tipo de relação com Ken Tyrrel, com maior cumplicidade e Emerson Fittipaldi
- Argentina 1972 abertura, numa simbiose interessante. Mas o stress daquele ambiente perigoso e carregado acabou com a saúde de Stewart. Um sujeito hiper-ativo, por decorrência da dislexia que o acompanhava desde criança, o escocês acumulava responsabilidades o ano todo, seja nas pistas, testando ou competindo, seja fora delas, em intermináveis compromissos com patrocinadores. Seu diário parecia a maior doideira: numa mesma semana, era capaz de correr domingo na Inglaterra, de F-1, ir testar seu Tyrrel por cinco dias seguidos na África do Sul, viajar um monte de horas para chegar na Califórnia para correr uma etapa do campeonato de turismo CanAm, e ainda aproveitar todas as oportunidades possíveis para fazer uma média com os patrocinadores.

Isso acabou lhe rendendo uma úlcera, que o levou a ser internado de emergência após uma hemorragia interna. A imprensa não perdeu a chance e apelidou aquela úlcera de Fittipaldi. Quando voltou para as pistas, Emerson já estava confortável na liderança, e seguiu para se tornar o piloto mais jovem a conquistar um título da F-1, recorde que mantém até hoje.

“Jackie é muito tenso, isso vai acabar com sua saúde”, alertou Emmo. Realmente, quando o assunto era autocontrole, ninguém superava o brasileiro. É preciso muito sangue frio para utilizar a sua então tática de largada: mesmo sempre largando nas primeiras filas, Fittipaldi partia com imenso cuidado, permitindo que outros pilotos o ultrapassassem, de forma a poupar a embreagem para as voltas finais. Por isso mesmo, o carro do brasileiro conseguia vencer corridas em que outros ficavam pelo meio do caminho.

Sua manha para ultrapassar Jackie, seguramente um cara rápido e que lutava a todo custo para manter sua posição, era abusar da paciência. Grudava em sua traseira e ficava lá pelo tempo que fosse, até que Jackie desse uma bobeada. O escocês reclamava que o carro de Emerson, por ser todo preto, atrapalhava a noção de distância quando visto pelo espelho retrovisor. Desta forma, Emmo conseguiu boas ultrapassagens sobre o rival, garantindo diversas vitórias e o mundial.

A mesma tocada avassaladora de Fittipaldi continuou no começo de 1973. Foram 3 vitórias em 4 provas, inclusive no primeiro Grande Prêmio oficial do Brasil. Parecia que o brasileiro seria imbatível, mas sua sorte mudou a partir da metade do ano, onde passou a registrar vários abandonos. A decisão de Collin Chapman de contratar um piloto de alto nível para pilotar o segundo Lotus, Ronnie Peterson, só piorou as coisas, tirando pontos preciosos do brasileiro. A gota d’água foi o GP de Monza, em que um Emerson ainda com esperanças de conquistar o título viu-se em segundo lugar atrás de Peterson a corrida toda, esperando que a combinada ordem dos boxes permitisse aos pilotos mudar de posição. As encrencas com Chapman esgotaram a paciência de Emerson, que acabou assinando com a McLaren para a temporada seguinte.

Aproveitando-se do imbróglio na Lotus, Stewart usou toda a sua experiência para ganhar seu terceiro título mundial, com antecedência. Desde o começo do ano, o escocês já havia avisado Ken Tyrrel que esta seria sua última temporada, por estar extenuado com o ritmo que levava sua vida. Este segredo foi mantido a sete chaves até mesmo dentro da equipe; o segundo piloto, François Cevert, nem tinha idéia que seria o primeiro piloto da equipe no ano seguinte. Quando recebeu um convite para pilotar a Ferrari em 1974, o francês boa pinta foi convencido a desistir da idéia por Jackie, que lhe disse que aprenderia mais correndo com ele por mais um ano. O carinho que Stewart tinha por Cevert, seu protegido, era mesmo muito grande. Desta forma, é compreensível o choque do tricampeão após o acidente que roubou a vida de François, nos treinos qualificatórios do GP do EUA. Seria a última prova do ano, e a centésima da carreira vitoriosa de Stewart. A batida foi gravíssima, tendo o jovem francês sido degolado por um guard-rail mal montado. Um dos primeiros a chegar ao local foi o Emerson, que ficou chocado com a cena. O brasileiro, posteriormente, afirmou que aquela imagem de Cevert o perturbou durante muitas noites depois.

Jackie decidiu empacotar suas coisas e abandonar os EUA e a F-1 após a confirmação da morte de seu pupilo. O acidente esgotou suas forças para continuar a competir. Aquela decisão surpreendeu a imprensa e a torcida, pois o escocês estava no auge de sua forma, mas apenas serviu para mostrar, mais uma vez, o homem que era John Young Stewart.

Sua despedida das pistas não foi em vão. Emerson levantou o bastião da defesa pela segurança nas pistas e, nos anos que se seguiram, usou seu status de bicampeão da F-1 para defender uma enérgica mudança na mentalidade dos donos de equipe e dos proprietários de circuitos.

Estes dois mitos do automobilismo ousaram levantar a voz contra a estúpida conivência dos cartolas com a morte em série de pilotos pelas pistas. Naqueles anos do começo da década de setenta, as estatísticas mostravam que um piloto que corresse cinco temporadas tinha duas chances em três de falecer nas pistas. As equipes médicas eram uma piada, e os esforços para maior proteção nas pistas eram rechaçados por importarem em maiores custos aos organizadores. Por conta da luta que enredaram, Emerson e Jackie foram muitas vezes acusados de medrosos e antiprofissionais, quando na verdade eram exatamente o oposto. Seus esforços valeram a vida de inúmeros pilotos nos anos que se seguiram e, se a segurança absoluta na F-1 é uma ilusão, com certeza padrões razoáveis merecem ser respeitados. Ninguém entra numa pista para se suicidar; a F-1 não é uma corrida de bigas romanas.

Parabéns para Emerson Fittipaldi e Jackie Stewart: campeões nas pistas, heróis fora delas.


MOMENTOS MARCANTES!!

Tem três momentos do Emerson (todos na F1) que me fazem marejar os olhos e mostram como este país é ingrato com seus grandes esportistas.
1972, Monaco. Emerson larga na pole mas larga mal e passa em terceiro na primeira volta, debaixo de um dilúvio fenomenal. A sua frente Ickx, Beltoise e Regazzoni. Emerson, embutido no suíço, passa reto na chicane da piscina, seguindo-o e os dois retornam em sétimo e oitavo. Eles vem recuperando posições e o Emerson, depois de livrar-se do Regazzoni, parte para cima do Stewart. Era final de prova, última volta. Emerson entra no túnel colado, na descida em direção aos "S"da piscina, o escocês toma a linha de dentro e o Emerson coloca POR FORA, contorna a primeira perna de lado e sai na frente na segunda!!! O Stewart pára o carro no segundo "S" e volta para os boxes a pé. Aí vem a "estória": Ele entra e todos perguntam o que aconteceu, se o carro quebrara e ele diz: "Não... eu só não tinha mais o q fazer na pista (realmente, mesmo parando ele terminou em quarto). Como é que eu posso vencer alguém que é capaz de fazer o impossível?" Quem ouviu o Stewart dizendo isso foi o Janus Lengel, mito do jornalismo esportivo brasileiro e guru de toda uma geração.
Detalhe: Stewart não correu a prova seguinte - GP da Belgica - devido a uma úlcera!!! Segundo o pessoal dos boxes, a "úlcera" do escocês tinha um nome: Fittipaldi!!!

GP da Argentina, 1973.
Na pole, Regazzoni (BRM), com Emerson (Lotus 72) a seu lado. Na segunda fila, vejam só, Ickx (Ferrari) e Stewart (Tyrrell 005 – modelo do ano anterior). Na terceira, Peterson (Lotus 72) e François Cevert (Tyrrell 006 – modelo novo). O grid teria ainda Beltoise (BRM), Dennis Hulme (McLaren), Reutemann (Brabham) e Mike Hailwood de Surtess, completando os 10 primeiros. A corrida contava também com Pace (Surtees), Niki Lauda (BRM), Jarier (March) e Wilsinho Fittipaldi (Brabham), entre outros.
A largada já preparava a emoção: lado a lado, Regazzoni, Emerson e Cevert, que havia feito uma largada excepcional, dividindo a primeira curva. Regazzoni fica na frente, com Cevert e Fittipaldi a seguir. Após 29 voltas, Cevert ultrapassaria Regazzoni que, logo depois, seria ultrapassado por Stewart (que vinha fazendo uma corrida espetacular), Fittipaldi e Peterson. As Tyrrell nas duas primeiras colocações, seguidas por duas Lotus.
O show de Emerson começaria a 20 voltas do final, quando partiu decidido para cima de Stewart, ultrapassando-o, de maneira incrível, e em perseguição a Cevert, que abrira mais de 12 segundos do companheiro. Em poucas voltas, o talento, a técnica e o arrojo de Emerson começam a prevalecer. Com um carro mais inteiro, especialmente os pneus, que já haviam sido o motivo da queda de rendimento de Regazzoni e Stewart, o Rato vai se aproximando a cada volta do francês, tirando rapidamente a diferença.
E foi então que se pôde ver toda sua técnica. Por duas voltas, Fittipaldi observou, instigou o adversário ao erro, ensaiou tomadas para, então, a 10 voltas do final, ao aproximarem-se do S do circuito, ensaiar uma ultrapassagem por dentro. Cevert defendia-se mudando o traçado, cedendo apenas o lado de fora da tomada da curva que se aproximava e atrasando a freada para equiparar-se ao campeão. O Rato, prevendo a ação do rival, freara um pouquinho antes e aplicou-lhe o "X" ainda na entrada da curva. Inesquecível.
Em ambas as ultrapassagens sobre as Tyrrel ele meteu duas rodas na grama!!!

Interlagos, 1979.
Depois de toda a expectativa criada no ano anterior com o pódio no Rio de Janeiro, a corrida voltava para SP.
Emerson vinha em quarto, depois de uma ultrapassagem espetacular sobre o Jody Scheckter e tirando diferença para o Reutemann quando um problema no motor fez o Coopersucar perder rendimento. Emerson arrastou-se até os boxes. A equipe resolveu o problema e ele voltou... em décimo sétimo. Voltou enfurecido, fazendo as curvas 1 e 2 de pé cravado, até chegar no Regazzoni, de Williams. O suíço dificultou tudo o que era possível, então o Emerson comprometeu a curva do sargento do suíço e partiu pra cima na subida do laranjinha... o Regazzoni fechou tudo o que podia e o que não podia. O Emerson meteu as 2 rodas do lado direito na grama e passou o suiço! Delírio em Interlagos.
Ele terminou apenas em décimo primeiro mas pilotou como se aquela fosse a última corrida de sua vida.

Esses momentos inesquecíveis foram retirados do Orkut.


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